Em 1952, o compositor John Cage compôs sua obra mais famosa, “4′ 33″“. Durante quatro minutos e trinta e três segundos, ele não tocou uma única nota. A intenção era que o ouvinte prestasse atenção no que realmente estava presente: o som do ambiente, e não o som ambiente.
“A mente pode ser usada tanto para ignorar sons ambientes, alturas que não sejam as oitenta e oito [notas do piano], durações que não são contadas, timbres que são não musicais ou desagradáveis, e, em geral, para controlar e compreender uma experiência. Ou a mente pode abrir mão de seu desejo de aperfeiçoar a criação e funcionar como uma receptora fiel da experiência”, escreveu Cage em “Silence: Lectures and Writings“.
No mundo digital, vivemos o oposto dessa experiência. As redes sociais criaram um estado permanente de ruído branco informacional, marcado por vídeos curtos, repetição de tendências e estímulos constantes e vai se tratar, garota. A chamada economia da atenção se alimenta da nossa incapacidade de pausar, criando um ciclo de dependência, ansiedade e fadiga mental. Por isso, o resultado é a exaustão digital e a sensação de estar preso num fluxo interminável de anúncios. Tudo vira vitrine. Somos incentivados a nos transformar em produto. O brain rot, também conhecido como cérebro pôdi, é real.
O golpe tá aí
É nesse cansaço que os influenciadores — e até veículos de comunicação maiores, se liga — inventam baboseiras como “jejum de dopamina“, empurram estrangeirismos tipo wellness e mindfulness. Esse movimento também é chamado de “detox digital”. Mas isso nada mais é do que reduzir o tempo de tela.
Como jornalista, sempre acreditei que estar conectada era sinônimo de estar informada. A informação era minha matéria-prima. Mas perceber o tempo que eu perdia só rolando feed me levou a uma tentativa de distanciamento das redes sociais. O rumo que algumas estavam tomando também me fez tomar uma decisão que, para alguns, parece radical: sair do Facebook, abandonar a rede social de pedófilo o Twitter (Xis, sei lá, não importa) e desinstalar o Instagram. Não é uma rejeição da tecnologia, mas uma tentativa de recuperar autonomia.
Ao reduzir o tempo de tela, o tédio deu lugar à presença. Menos atualização, mais continuidade. Menos performance, mais vida concreta. Porém, no capitalismo, tudo tem um preço.
O medo de ficar para trás
Desconectar, no entanto, tem custos reais. Agora, falando como quem consome muita música desde sempre, existe o medo de perder lançamentos, referências, descobertas mediadas por algoritmos ou indicações repostadas por algum amigo. Sair das redes sociais significa perder acesso a um catálogo gigante de novidades. O FOMO (Fear of Missing Out, ou medo de ficar de fora) é um dos principais mecanismos de controle das plataformas.
Escolher o silêncio também significa aceitar que alguns espaços vão ficar vazios. Nem tudo chega. Ao mesmo tempo, nem tudo precisa chegar.
Quem pode se dar ao luxo de sumir?
A discussão não é apenas individual. Existe uma dimensão política clara: quem pode se dar ao luxo do silêncio digital? Hoje, se desconectar virou sinal de status. Enquanto executivos de tecnologia limitam o acesso dos próprios filhos às telas, trabalhadores, criadores independentes e pequenos empreendedores dependem da visibilidade constante para sobreviver. Aquele papo de “ninguém lembra de quem não aparece”.
Para muitos, postar é subsistência. O offline virou mercadoria. Retiros de detox digital, silêncio guiado e bem-estar sem tela são vendidos como produtos premium. O que deveria ser direito básico se transforma em privilégio de classe no capitalismo do bem-estar.
É tudo sobre regular o volume
Do final do ano passado até agora, em fevereiro, escolhi — precisei, na verdade — me afastar do mundo digital social. Mas minha saída das redes não foi uma recusa ao mundo digital. Foi uma tentativa de regular o volume. Ter tempo para ler, criar sem interrupção, escolher o silêncio, também é um gesto político. Inclusive, a redação do site separou 6 livros para sair mais das telas em fevereiro, confere lá!
Talvez eu tenha perdido o assunto do dia ou o lançamento da semana. Em troca, ganhei a capacidade de ouvir o som da minha própria vida.


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