Se a Amazônia fosse mulher, o que ela diria ao mundo?
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Se a Amazônia fosse mulher, o que ela diria ao mundo?

Ailton Krenak em Belém. Crédito: Nailana Thiely

Se tivesse voz, a Amazônia denunciaria uma violência contínua. Uma violência que não começa hoje e não é silenciosa. Segundo Ailton Krenak, ela falaria sobre o capitalismo como expressão do patriarcado, uma mão dura e insistente que avança sobre seu corpo por meio do garimpo, do contrabando, do desmatamento e de uma agricultura “envenenada”, que fere a terra como quem fere a própria pele. 

“Eu sempre percebo que essa floresta tem a mesma necessidade de cuidado que os nossos corpos”, diz o líder indígena, pensador e ativista ambiental, ao chegar a Belém para a abertura da exposição Hiromi Nagakura até a Amazônia com Ailton Krenak, no Centro Cultural Banco da Amazônia.

A mostra, idealizada pelo Instituto Tomie Ohtake, reúne 82 fotografias inéditas no Brasil, feitas pelo fotógrafo japonês Hiromi Nagakura durante viagens pela Amazônia ao lado de Krenak entre 1993 e 1998. As imagens registram não o exótico, mas o cotidiano. Mulheres preparando maniva, famílias reunidas em torno do forno de farinha, meninas Yanomami na roça de batata, ritos, festas e gestos simples que sustentam a vida. 

Belém, cidade que recebe a exposição, ocupa um lugar simbólico nessa narrativa. Para Krenak, o fato de ser uma capital amazônica urbana dentro da floresta provoca estranhamento em quem olha de fora. “Para quem não está aqui, parece que a gente perdeu muito da floresta para ter uma cidade”, reflete. Mas ele propõe outro olhar: Belém revela um território em transição, onde ainda é possível perceber a convivência, nem sempre harmônica, entre o mundo natural e o mundo artificial. Um convite para observar sem julgamento e compreender os custos e as escolhas impostas por esse modo de habitar.

Depois de circular por cidades como São Paulo e Brasília, a exposição finalmente chega à Amazônia. Para Krenak, esse retorno tem um significado especial. “Para o Sudeste, essas imagens parecem exóticas, como se fossem de outro país. Aqui, no Pará, elas são autoimagens”. O que se vê nas paredes do Centro Cultural Banco da Amazônia não é um retrato distante, mas um espelho. “Estou feliz de devolver para vocês essas imagens tão bonitas, que nasceram aqui mesmo, nesse território”.

Mais do que mostrar paisagens, a exposição busca responder a uma pergunta recorrente, por que os povos indígenas precisam de seus territórios? As imagens revelam que não se trata apenas de terra, mas de qualidade de vida, de saúde, de soberania alimentar e de vínculos comunitários. Ao mesmo tempo, Krenak reconhece a presença crescente de indígenas em contextos urbanos e reforça a importância de garantir a essas populações acesso a saneamento, saúde e infraestrutura digna, sem que isso signifique apagar suas identidades.

Se a Amazônia fosse mulher, talvez dissesse que ainda há tempo. Mas é preciso escutar seu corpo, suas marcas e seus silêncios antes que a violência se torne irreversível.

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