Aos 15 anos, Denilson Silva precisou fazer uma escolha que nenhum adolescente deveria enfrentar, ser quem era ou continuar tendo um lar. Ao assumir sua identidade, foi expulso de casa. A partir daquele momento, a adolescência deixou de ser um tempo de descobertas comuns e passou a ser uma luta diária por sobrevivência.

“Morei na casa de amigos, contei com a solidariedade de pessoas que, mesmo sem laços de sangue, ofereceram o que muitas vezes me faltou dentro de casa, acolhimento, escuta e afeto”, relembra. Ainda assim, tiveram impactos. “Crescer sem referência familiar atravessa tudo. Até conquistas que deveriam ser celebradas carregam essa ausência”, avalia.
Hoje, conhecido também como Pai Denilson D’Oxaguiãn, ele reconstruiu a própria trajetória. Mora em Belém, mantém uma relação afetiva estável há 16 anos e atua na defesa dos direitos da população LGBTI+, à frente da Gerência Estadual de Diversidade Sexual e de Gênero e como representante da Aliança Nacional LGBTI+. A reconciliação com a família também veio,anos depois, com esforço e ressignificação. Mas a história dele está longe de ser exceção.
Dados do Diagnóstico da Juventude Brasileira – Juventude LGBT (2018) mostram que a família, frequentemente idealizada como espaço de proteção, aparece como um dos principais focos de exclusão. É dentro de casa que muitos jovens enfrentam as primeiras experiências de discriminação, controle e violência.
A rejeição pode assumir formas explícitas como expulsões, agressões e ameaças, ou silenciosas, como negação, apagamento e vigilância constante. Em ambos os casos, os efeitos são devastadores.
“A discriminação familiar é uma das formas mais profundas de violência porque acontece justamente no lugar que deveria ser seguro”, explica a professora e secretária de comunicação da Rede Trans Brasil, Sayonara Nogueira.

Segundo ela, a ruptura desse vínculo gera impactos psicológicos duradouros. “Esse jovem passa a acreditar que há algo errado com a própria existência. Surgem ansiedade, isolamento, dificuldade de criar vínculos e até traumas de apego”, destaca.
A própria Sayonara carrega marcas dessa experiência. “Eu me auto punia porque achava que o que eu sentia era pecado. Hoje, aos 52 anos, ainda percebo reflexos disso, especialmente na dificuldade de lidar com afeto”.
Vulnerabilidade
A rejeição familiar não termina dentro de casa, ela empurra jovens para uma cadeia de vulnerabilidades.
O abandono é um dos principais fatores que levam pessoas LGBTI+ à situação de rua. O Brasil concentra cerca de 40% dos assassinatos de pessoas trans no mundo, evidenciando como a exclusão começa no ambiente familiar e se estende para outras esferas da vida.
“Esse ciclo de exclusão começa dentro de casa e impacta a educação, o mercado de trabalho e o acesso a direitos básicos”, reforça Sayonara.
Para o psicólogo e psicanalista Henrique de Abreu, o conflito entre sexualidade e família está diretamente ligado a expectativas construídas antes mesmo do nascimento.
“Existe um ideal cis-heteronormativo muito forte. Antes mesmo de nascer, já se imagina quem essa criança vai ser dentro de um padrão binário. Quando ela rompe com isso, há um processo de luto na família, perde-se uma ideia, um projeto”, explica.
Esse rompimento, segundo ele, costuma gerar tentativas de controle e negação. “Há uma dificuldade de escuta. Muitas famílias tentam trazer o sujeito de volta para esse padrão, como se fosse algo temporário ou corrigível”, pontua o psicólogo.
O impacto disso na saúde mental é significativo. “A rejeição familiar pode desencadear ansiedade, depressão e até ideação suicida. É como perder o chão. Perde-se a base afetiva”.
Violência silenciosa
Nem toda violência é explícita. Muitas vezes, ela se instala no silêncio.
“A discriminação simbólica é mais sutil, mas igualmente perigosa”, explica Sayonara. “Ela aparece na negação, no silêncio, no controle. E isso gera culpa. O jovem passa a se sentir errado por magoar a família”.
Esse tipo de violência também tem reflexos diretos na escola. “Há queda no desempenho, evasão e dificuldade de permanência. A escola precisa estar atenta e atuar como rede de proteção”, destaca.
O que diz a lei
Apesar da realidade, a legislação brasileira é clara. Nenhuma forma de discriminação contra crianças e adolescentes é permitida.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garante a integridade física, psíquica e moral, além do direito à dignidade, ao respeito e à convivência familiar. A Constituição Federal também assegura igualdade de direitos, independentemente de qualquer condição.
A homofobia é crime no Brasil desde 2019, e práticas como a chamada “cura gay” são proibidas e consideradas ilegais.
Ainda assim, a distância entre a lei e a realidade segue evidente.
Acolhimento
Se a rejeição destrói, o acolhimento transforma.
“Uma família acolhedora é aquela que escuta, valida e busca entender”, afirma o psicólogo Henrique de Abreu. “Você não precisa viver a experiência do outro para oferecer suporte. Estar disponível já faz toda a diferença”.
Segundo ele, o apoio familiar funciona como um fator de proteção essencial. “O efeito do suporte é muito maior que o da rejeição. Ele fortalece, emancipa e permite que esse sujeito enfrente as violências externas com mais estrutura”, destaca o psicólogo.
A informação também é peça-chave nesse processo. “Ela tira o preconceito do campo da opinião e leva para o campo do fato. Humaniza e ajuda a reconstruir vínculos”, completa Sayonara Nogueira.
“Nenhuma pessoa deveria precisar escolher”
Ao olhar para trás, Denilson sabe que sua história carrega dor, mas também transformação. Hoje, ele usa a própria trajetória como ferramenta de luta.
“A expulsão de casa ainda é uma realidade cruel no Brasil. Ela interrompe sonhos e expõe jovens a vulnerabilidades enormes”, afirma.
Contar sua história, segundo ele, é mais do que um relato pessoal. É um ato político.
“Nenhuma pessoa deveria precisar escolher entre ser quem é e ter um lar. A luta é para que as próximas gerações não precisem passar por isso”.


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